A preservação da natureza é considerada essencial para a economia global, segundo o Fórum Econômico Mundial (WEF). A entidade destaca que mais da metade do PIB mundial depende direta ou indiretamente dos recursos naturais o que representa cerca de US$ 44 trilhões em valor econômico. Esses dados fazem parte de uma série de relatórios que analisam quatro setores estratégicos, entre eles o de energia eólica, além das maiores cidades do mundo.
No caso da energia eólica offshore, o WEF aponta que o setor se encontra em um ponto decisivo dentro da transição para um futuro mais positivo do ponto de vista da biodiversidade. O grande desafio está em expandir rapidamente a capacidade instalada, enquanto os agentes do setor buscam minimizar os impactos sobre os ecossistemas marinhos e as espécies que neles habitam.
Para que o setor avance de forma verdadeiramente sustentável, especialistas recomendam uma série de ações estratégicas. Entre elas estão a redução dos impactos causados por materiais e operações, o incentivo à inovação no design de produtos e o apoio direto
que vai além do investimento financeiro a iniciativas de restauração da natureza.
Inovações e melhorias do setor de eólicas offshore
Mais do que promessas, o relatório do WEF voltado para o setor de energia eólica offshore apresenta exemplos práticos de como a indústria tem liderado com responsabilidade ambiental. A seguir, três estudos mostram avanços concretos nesse sentido:
1. Gestão do ciclo de vida dos equipamentos de eólica offshore
Um caso emblemático é o da Shanghai Electric Wind Power, que adota uma abordagem sustentável em toda a vida útil de seus produtos. A fabricante de turbinas tem buscado soluções para desafios como reciclagem e poluição sonora, investindo em novos materiais, aprimorando o design e reaproveitando pás para reduzir o impacto ambiental.
Em novembro de 2023, a Shanghai Electric Wind Power firmou uma parceria para o desenvolvimento de uma resina reciclável voltada à fabricação de pás eólicas. O objetivo é alcançar uma taxa de recuperação de material de pelo menos 95%, sem necessidade de alterações no design original ou no processo de produção.
A empresa também está avançando para que, ao final da vida útil das pás, todos os materiais utilizados possam ser 100% recicláveis, fortalecendo seu compromisso com a sustentabilidade e a economia circular.
2. Recifes artificiais e seus efeitos na vida marinha
Outra frente de inovação é liderada pela dinamarquesa Ørsted, pioneira na geração de energia eólica offshore no Mar do Norte. Atuando na parte holandesa da região, a empresa colabora com instituições como a Rich North Sea e a Wageningen Marine Research, com o objetivo de entender melhor o comportamento e o deslocamento de espécies marinhas como o bacalhau do Atlântico e a lagosta europeia.
Para isso, a Ørsted cedeu quatro áreas ao redor de turbinas no parque eólico Borssele I e II, onde foram instalados tubos de concreto simulando recifes artificiais. Entre 2021 e 2022, cientistas da Wageningen estudaram a interação dessas espécies com as estruturas, avaliando como os recifes influenciam o ecossistema local.
Segundo os pesquisadores, analisar o comportamento de espécies que habitam áreas próximas a parques eólicos offshore pode proporcionar uma compreensão mais profunda sobre suas preferências de abrigo, uso do habitat e o desenvolvimento ecológico desses ambientes. O projeto teve como principal meta ampliar o conhecimento sobre a construção de recifes artificiais e sobre o comportamento do bacalhau do Atlântico e da lagosta europeia ao interagir com essas estruturas.
Os resultados revelaram que o bacalhau utilizou amplamente os recifes artificiais, com permanência por vários meses, forte fidelidade ao local e uso frequente das estruturas como abrigo. Já as lagostas fizeram uso mais limitado, mas também recorreram aos recifes como esconderijo. Para ambas as espécies, os cientistas recomendam o uso de estruturas maiores e com uma variedade maior de fendas, favorecendo a adaptação dos animais.
3. Restauração do ecossistema marinho
O terceiro caso de destaque vem da Attentive Energy, que desenvolve um projeto de energia eólica offshore na região próxima a Nova York. A empresa firmou parceria com o Billion Oyster Project uma iniciativa da cidade com foco na recuperação do ecossistema marinho no porto nova-iorquino.
A colaboração é centrada na restauração dos recifes de ostras, fundamentais para o equilíbrio ambiental local. Historicamente abundantes na região, as ostras atuam como filtros naturais da água e ajudam na proteção costeira. Cada ostra pode filtrar até 189 litros de água por dia, além de formar barreiras naturais contra a erosão.
A meta é restaurar um bilhão de ostras vivas no porto até 2035, promovendo também o engajamento da comunidade, de estudantes e voluntários em atividades de restauração ambiental. Segundo o relatório do WEF, essa iniciativa mostra como a integração entre projetos de energia renovável e ações de recuperação marinha pode gerar benefícios reais para a natureza.
Indústria eólica offshore precisa adotar estratégias para evitar a perda de biodiversidade
Além da indústria eólica offshore, o relatório do WEF também avaliou outros setores críticos: automobilístico, cimento e concreto, químico, mineração e metais, produtos de uso doméstico e cuidados pessoais, além do setor portuário. Apesar do avanço nas metas climáticas com 78% das empresas da Fortune 500 já comprometidas , apenas 12% estabeleceram objetivos voltados à interrupção ou reversão da perda de biodiversidade.
O cenário também é preocupante nas cidades: entre as 500 mais populosas do mundo, apenas 37% possuem estratégias claras de gestão e proteção da natureza de forma sustentável.